A planejada abertura do mercado livre de eletricidade brasileiro para consumidores de baixa tensão, incluindo residências e pequenos negócios, exigirá um fortalecimento robusto de mecanismos de avaliação de crédito, gestão de liquidez, supervisão regulatória e proteção ao consumidor. Essa é a principal conclusão de um estudo aprofundado realizado pelos especialistas em mercado de energia Guilherme Susteras e Alexandre Bueno, que lançam luz sobre os potenciais desafios que o setor enfrentará com a expansão. A pesquisa destaca a importância de aprender com a experiência do mercado de geração distribuída compartilhada para mitigar riscos futuros.
O estudo baseou-se em uma análise detalhada de dados da plataforma Wattio, abrangendo 88.000 unidades consumidoras conectadas a 1.400 usinas solares compartilhadas. Os dados foram coletados entre janeiro de 2025 e maio de 2026, cobrindo as áreas de serviço de 40 distribuidoras de energia elétrica. Os pesquisadores identificaram uma taxa média mensal de inadimplência de 17% nos pagamentos e uma rotatividade mensal de clientes de 4%, o que, em um ano, poderia resultar em uma troca de mais de 40% da base de consumidores. Tais descobertas servem como um importante ponto de referência para avaliar os riscos que podem se acentuar à medida que o Brasil avança na abertura de seu mercado livre de energia.
Cronograma de Abertura e Preocupações Iniciais
O cronograma regulatório previsto para a abertura do mercado livre de energia estabelece datas importantes para a migração de diferentes categorias de consumidores. A partir de 25 de novembro de 2027, consumidores industriais e comerciais estarão aptos a migrar para o mercado livre. Em seguida, a partir de 25 de novembro de 2028, outros consumidores, incluindo os residenciais, também se tornarão elegíveis. Essa transição gradual, mas abrangente, é o pano de fundo para as preocupações levantadas pelos especialistas.
Susteras e Bueno enfatizam que a expansão do mercado varejista de eletricidade demandará uma supervisão regulatória que vá além do tradicional monitoramento do equilíbrio físico e energético do sistema. A complexidade crescente do mercado exigirá uma atenção a aspectos financeiros e contratuais que antes não eram tão proeminentes. A sustentabilidade do mercado dependerá da capacidade dos órgãos reguladores de se adaptarem a essa nova realidade.
Não bastará monitorar apenas o balanço físico e energético do sistema. Questões como capital de giro, liquidez, robustez contratual, avaliação de crédito, mecanismos antifraude e práticas comerciais se tornarão cada vez mais importantes para a sustentabilidade do mercado varejista.
Guilherme Susteras, especialista em mercado de energia
A pesquisa aponta que mesmo uma base de clientes fragmentada não elimina os riscos de inadimplência. Em um mercado altamente competitivo, níveis significativos de pagamentos em atraso podem pressionar o fluxo de caixa dos varejistas de eletricidade e comprometer sua capacidade de cumprir obrigações financeiras. Os pesquisadores defendem a implementação de mecanismos mais robustos de avaliação de crédito, garantia e gestão de recebíveis desde as fases iniciais da expansão do mercado, visando prevenir crises de liquidez e garantir a solidez financeira dos participantes.
Pressão de Preços e Rotatividade de Clientes
A competição por clientes é outro desafio potencial destacado pelo estudo. A geração solar por assinatura, por exemplo, ofereceu um desconto médio anual de 17%, chegando a 19% em 2026. Os pesquisadores alertam que os custos de aquisição de clientes, a inadimplência, as exigências de capital de giro e a pressão competitiva podem levar os varejistas de eletricidade a reduzir suas margens excessivamente na busca por participação de mercado, o que pode ser insustentável a longo prazo.
Em um mercado com custos significativos de aquisição de clientes, inadimplência e requisitos de capital de giro, uma estratégia baseada exclusivamente em preços mais baixos pode comprometer a sustentabilidade financeira das operações.
Guilherme Susteras, especialista em mercado de energia
Susteras adiciona que a falência de varejistas poderia deixar os consumidores dependentes de um fornecedor de último recurso, potencialmente expondo-os a preços de eletricidade mais altos. Este cenário sublinha a necessidade de um equilíbrio entre a competitividade e a estabilidade financeira dos operadores do mercado.
O estudo também identificou a rotatividade mensal de clientes de 4% como uma fonte de pressão sobre os custos operacionais. Contratos com poucas barreiras de saída, a falta de compreensão dos produtos de energia pelos consumidores, práticas de vendas agressivas e a intensa concorrência de preços são fatores que contribuem para essa alta rotatividade. A instabilidade na base de clientes dificulta o planejamento e a gestão de longo prazo para os varejistas.
Outra preocupação é a capacidade ociosa dos projetos, que ocorre quando as usinas de geração solar compartilhada não conseguem atrair assinantes suficientes para absorver sua produção disponível. Os pesquisadores alertam que investimentos feitos antes que a demanda suficiente se materialize podem aumentar a exposição financeira dos participantes do mercado. Uma situação semelhante pode surgir no mercado livre de eletricidade se a contratação excessiva aumentar a exposição dos varejistas ao mercado de eletricidade de curto prazo do Brasil, especialmente se a oferta contratada crescer mais rapidamente do que a demanda dos clientes.
Assimetria de Informação e Complexidade Operacional
Os pesquisadores também destacam os desafios de atender a consumidores de eletricidade menores. Citando dados da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), o estudo observa que a energia não está entre as principais prioridades dos pequenos empresários, que tendem a focar em questões como pessoal, suprimentos, vendas, marketing, tributação e requisitos administrativos. Como resultado, alguns consumidores podem firmar contratos de fornecimento de eletricidade sem compreender totalmente seus termos comerciais, arranjos de faturamento ou obrigações contratuais.
A assimetria de informação é uma questão crítica. Surgem situações em que os consumidores alegam não reconhecer contratos ou têm dificuldade em entender os encargos apresentados em suas contas.
Alexandre Bueno, especialista em mercado de energia
Os prazos de contratação podem complicar ainda mais a experiência do cliente. Na geração distribuída por assinatura, o período entre a assinatura de um contrato e o recebimento dos benefícios associados pode se estender por até 90 dias. Um período semelhante pode se aplicar entre o cancelamento e o retorno aos arranjos de fornecimento anteriores. De acordo com o estudo, o início do fornecimento por um varejista no mercado livre pode envolver um prazo comparável, enquanto o retorno à distribuidora pode levar até um ano. Para consumidores não familiarizados com contratos de fornecimento de eletricidade, esses atrasos podem aumentar a incerteza e o risco percebido.
Supervisão Regulatória Ampliada
A abertura do mercado para consumidores de baixa tensão também deve aumentar a complexidade operacional devido às diferenças nos procedimentos de medição e faturamento entre as distribuidoras de eletricidade brasileiras. Os pesquisadores afirmam que problemas que afetam a experiência do cliente podem se tornar indicadores de estresse regulatório à medida que o número de varejistas, consumidores e relações contratuais aumenta.
A capacidade de fiscalizar contratos e práticas comerciais, combater fraudes, monitorar indicadores de liquidez e inadimplência, e gerenciar diferentes processos de medição e faturamento será decisiva para o estabelecimento de um mercado mais amplo e sustentável.
Guilherme Susteras, especialista em mercado de energia
O estudo foi desenvolvido pela Allez Estratégia, uma consultoria especializada em regulação de energia e mercados varejistas de eletricidade, e se baseia na experiência de Susteras e Bueno, que lideraram a empresa solar brasileira Sun Mobi de 2016 a 2025. Os pesquisadores alertam que a experiência da geração distribuída por assinatura não prevê necessariamente como o mercado livre de eletricidade se desenvolverá, mas fornece indicadores de riscos que podem se tornar mais significativos à medida que a concorrência varejista se expande. Eles concluem que a liberalização do mercado exigirá não apenas maior escolha para o consumidor, mas também governança mais forte, estruturas regulatórias e práticas de gestão de riscos.
Leitura da LZ7 Energia
A abertura do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão representa uma oportunidade sem precedentes para a LZ7 Energia e para o avanço da energia solar no Norte Pioneiro do Paraná. À medida que mais consumidores buscam alternativas para reduzir suas contas de luz e buscam maior previsibilidade de custos, a energia solar se posiciona como uma solução atrativa. No entanto, os desafios apontados pelo estudo, como a inadimplência e a necessidade de maior clareza contratual, reforçam a importância de empresas como a LZ7 Energia em oferecer não apenas soluções tecnológicas de ponta, mas também um atendimento transparente e educativo. A LZ7 Energia, ao atuar na região, tem o papel de simplificar a transição para a energia solar, garantindo que os consumidores compreendam plenamente os benefícios e as responsabilidades de seus contratos. Um mercado mais robusto e bem regulado, com foco na proteção do consumidor e na solidez dos varejistas, é fundamental para que a energia solar possa florescer e contribuir efetivamente para a economia local e para a sustentabilidade energética da região.
Fonte: PV Magazine — Solar global — matéria original publicada em pv-magazine.com. Imagens e vídeos: PV Magazine — Solar global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
