Um ano se passou desde o anúncio do 'cessar-fogo' na Faixa de Gaza, e a esperança de recuperação do devastado sistema de saúde da região se transformou em uma realidade de colapso contínuo. A expectativa de que medicamentos e equipamentos chegassem regularmente, hospitais fossem restaurados e pacientes pudessem ser evacuados para tratamento fora de Gaza não se concretizou. Em vez disso, a situação se agravou, com restrições persistentes e bombardeios contínuos que ceifaram a vida de mais de 1.470 pessoas desde o início do 'cessar-fogo'.
A Persistência de uma Crise Humanitária
Apesar do 'cessar-fogo' declarado em 10 de outubro do ano passado, a realidade em Gaza é de uma crise humanitária que não dá trégua. O sistema de saúde, já fragilizado por anos de conflito, está operando muito além de sua capacidade. A chegada regular de suprimentos médicos e equipamentos continua restrita, e as evacuações médicas permanecem estagnadas. A segurança precária impede até mesmo o acesso a centros de saúde, colocando pacientes em risco.
Um exemplo trágico dessa situação foi a morte de um paciente de 65 anos no mês passado, atingido por fogo de quadricóptero militar israelense enquanto procurava tratamento em um centro de saúde apoiado pela Medical Aid for Palestinians (MAP) em Jabalia. Este incidente sublinha os perigos enfrentados pela população ao tentar acessar cuidados básicos.
Desafios no Tratamento e Reabilitação
Os profissionais de saúde em Gaza enfrentam o desafio de tratar novas lesões traumáticas enquanto tentam cuidar de pacientes com condições crônicas que exigem tratamento de longo prazo. Pessoas que perderam membros necessitam de reabilitação, próteses e cirurgias adicionais, mas as autoridades israelenses restringem severamente a entrada dos suprimentos necessários. Crianças que sobreviveram à desnutrição aguda agora sofrem de anemia e retardo de crescimento, exigindo tratamento contínuo.
Pacientes com diabetes e hipertensão arterial lutam para obter seus medicamentos, enquanto aqueles com câncer não conseguem acesso à radioterapia necessária. Indivíduos com insuficiência renal não podem contar com sessões regulares de diálise, essenciais para sua sobrevivência. A falta de equipamentos e suprimentos básicos compromete a capacidade dos médicos de fornecer cuidados adequados.

O Caso de Iktimal e a Luta por Evacuação Médica
A história de Iktimal, tia de uma colega da MAP em Gaza, ilustra a gravidade da situação. Em fevereiro, Iktimal suspeitou de um problema de saúde e fez uma biópsia. No entanto, o laboratório, como muitos em Gaza, não tinha os suprimentos para testar a amostra a tempo. Demorou mais de um mês para que ela descobrisse que tinha câncer cervical, uma doença geralmente curável quando diagnosticada precocemente. Ela foi submetida a uma cirurgia em abril, mas sua recuperação foi lenta e dolorosa, desenvolvendo complicações renais que exigiam tratamento especializado indisponível em Gaza.
“A família dela solicitou uma evacuação médica, mas o processo foi lento, obscuro e burocrático. Quando as autoridades israelenses finalmente aprovaram, sua condição era crítica. Ela viajou para o Egito na esperança de finalmente receber os cuidados de que precisava, mas duas semanas depois, ela faleceu.”
O caso de Iktimal não é isolado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 15.000 pessoas em Gaza ainda aguardam evacuação médica. A demora excessiva pode levar à morte evitável de muitos desses pacientes.
Escassez Crítica de Suprimentos e Equipamentos
A escassez de suprimentos médicos básicos é uma constante. Hospitais carecem de fluidos intravenosos, anestésicos e materiais cirúrgicos. Até mesmo o oxigênio, vital para muitos pacientes, está em falta. A equipe hospitalar é frequentemente obrigada a transportar cilindros para uma estação central para reabastecimento. Mais de 500 pacientes em Gaza dependem de oxigênio, alguns deles 24 horas por dia, incluindo pessoas com câncer, fibrose pulmonar, doenças cardíacas, bebês e crianças em terapia intensiva.
Em agosto, o Ministério da Saúde palestino alertou que 22 das 34 estações de oxigênio de Gaza haviam parado de funcionar, e apenas quatro das 30 máquinas usadas para encher cilindros de oxigênio ainda estavam operacionais. As estações restantes podem falhar em breve, pois as autoridades israelenses continuam a bloquear a entrada de peças de reposição necessárias para repará-las, classificando-as como itens de 'duplo uso'.

Impacto no Diagnóstico e Tratamento
Por razões semelhantes, Gaza não possui nenhuma máquina de ressonância magnética (MRI) funcionando, e apenas um ou dois tomógrafos computadorizados (CT) servem a uma população de cerca de dois milhões de pessoas. Isso força os médicos a tomar decisões sem os exames, testes ou medicamentos que normalmente seriam essenciais para um diagnóstico preciso e tratamento eficaz. Um câncer que poderia ter sido detectado precocemente torna-se mais difícil de tratar. Uma lesão que poderia ter sido curada com reabilitação resulta em uma deficiência permanente. Uma criança que precisava de alimentação adequada e tratamento pode ficar com desnutrição crônica, retardo de crescimento e dificuldades de desenvolvimento que podem durar a vida toda.
O Que Isso Significa Para a Região
A contínua deterioração do sistema de saúde em Gaza, um ano após o 'cessar-fogo', é um alerta severo sobre as consequências humanitárias de conflitos prolongados e restrições. A falta de acesso a cuidados básicos, medicamentos e equipamentos essenciais não apenas ceifa vidas diretamente, mas também condena milhares de pessoas a uma existência de dor e sofrimento prolongados, com sequelas que podem durar uma vida inteira. A situação em Gaza demonstra a fragilidade da infraestrutura em zonas de conflito e a urgência de garantir o acesso irrestrito a ajuda humanitária e suprimentos vitais. A comunidade internacional e as partes envolvidas precisam garantir que os acordos de cessar-fogo se traduzam em melhorias reais e duradouras para a população, especialmente no que tange à saúde e bem-estar.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
