A elite política da China deu início, nesta segunda-feira (26/10/2026), a uma reunião de quatro dias com o objetivo de discutir medidas para intensificar a disciplina no Partido Comunista, agremiação que governa o país. O encontro ocorre em um momento em que o presidente Xi Jinping amplia a cobrança por lealdade irrestrita entre os quadros oficiais e aprofunda uma ofensiva de combate à corrupção que já dura mais de uma década. Realizado a portas fechadas, o chamado quinto plenário é monitorado de perto por analistas internacionais em busca de diretrizes sobre os rumos do país e a futura composição de sua liderança.
Início do quinto plenário e busca por lealdade
O plenário reúne aproximadamente 300 integrantes do Comitê Central do Partido Comunista e acontece cerca de um ano antes da data em que Xi Jinping deve consolidar seu quarto mandato de cinco anos à frente do comando partidário. A reunião antecede também trocas esperadas de pessoal em órgãos-chave de decisão da estrutura estatal e partidária chinesa. Embora o atual presidente já tenha consolidado um forte controle sobre o aparato de poder, o evento representa mais uma etapa para alinhar as ações dos burocratas regionais e nacionais às determinações diretas de Pequim.
Segundo analistas políticos, a intenção da cúpula é garantir que as lideranças emergentes sigam a cartilha traçada pela presidência para enfrentar os desafios domésticos e externos.
O plenário é uma oportunidade de assegurar que as novas gerações que sobem na hierarquia compartilhem a avaliação de Xi sobre as oportunidades e os riscos enfrentados pela China.
A avaliação foi compartilhada pela assessora sênior de políticas do Instituto Tony Blair para Mudança Global, com sede em Londres, Ruby Osman, em entrevista à agência Associated Press. Historicamente, os plenários anteriores serviram como plataformas para Xi sedimentar sua autoridade e avançar em suas diretrizes prioritárias.

Esvaziamento histórico do Comitê Central e expurgos
A reunião deste ano é marcada pelo menor comparecimento de membros desde a morte do líder Mao Tsé-Tung, ocorrida em 1976. O esvaziamento é consequência direta da ampla campanha anticorrupção conduzida por Xi Jinping ao longo de 14 anos, período em que milhares de funcionários públicos e partidários foram afastados, incluindo dezenas de membros do próprio Comitê Central.
A composição atual reflete os impactos dessa ofensiva:
- Oito assentos do Comitê Central encontram-se formalmente vagos;
- Outros 15 membros estão atualmente sob investigação e correm o risco de substituição oficial;
- Dezenas de figuras de alto escalão foram expurgadas ao longo dos 14 anos de operações contínuas de fiscalização.
Apesar do volume de punições já aplicadas, Xi tem demonstrado insatisfação com quadros que continuam falhando na execução de suas ordens. Em um discurso proferido em janeiro e veiculado pela imprensa estatal às vésperas do plenário, o mandatário atacou abertamente funcionários chamados de "duas caras", acusando-os de fingir cumprimento às diretivas centrais enquanto oferecem resistência interna, adotam posturas de oportunismo político e priorizam o individualismo em detrimento das metas coletivas do partido.
Impactos na cúpula militar e reestruturação
As ações disciplinares e investigações não se limitaram à burocracia civil, atingindo em cheio a estrutura de segurança e defesa da potência asiática. A campanha anticorrupção desarticulou o comando da Comissão Militar Central (CMC), órgão máximo responsável pelas forças armadas do Partido Comunista da China.
Dos sete membros que compunham a CMC, cinco foram destituídos de seus cargos após o avanço das apurações. Em razão desse cenário, diplomatas e observadores avaliam que o quinto plenário pode deliberar sobre a nomeação de novos nomes para recompor o comando militar ou até mesmo definir uma reestruturação mais ampla na forma como o partido exerce a supervisão direta sobre as forças armadas.
Regras de governança e fiscalização tecnológica
Durante os quatro dias de discussões, os delegados devem debater um projeto de decisão política voltado a promover o que as autoridades denominam de "autogovernança partidária plena e rigorosa", conforme noticiado pela agência estatal de notícias Xinhua. A proposta visa tornar a máquina administrativa mais eficiente, disciplinada e blindada contra desvios de conduta.
Para analistas como Neil Thomas, membro sênior do Instituto de Políticas da Sociedade Asiática (Asia Society Policy Institute), a liderança de Xi Jinping deve impor novas obrigações de conformidade e mecanismos de controle. Thomas aponta como expectativas para as conclusões do plenário:
- Endurecimento do escrutínio e da auditoria sobre gastos públicos e grandes projetos de infraestrutura;
- Ampliação do uso de ferramentas tecnológicas para rastrear e identificar atos de corrupção;
- Aplicação de consequências e punições mais severas para gestores que não cumprirem com as prioridades estabelecidas pelo governo central.
Cenário econômico e tensões geopolíticas de fundo
A intensificação das cobranças sobre a fidelidade e o desempenho dos quadros ocorre em meio a um quadro de incertezas na economia chinesa, a segunda maior do planeta. O país enfrenta dificuldades para reaquecer o consumo interno, que permanece estagnado, e busca alternativas para mitigar a crise prolongada no setor imobiliário, tradicional motor do crescimento nacional.
Além dos desafios econômicos internos, a liderança em Pequim lida com a pressão decorrente de relações políticas e comerciais instáveis com os Estados Unidos. O alinhamento dos gestores públicos é tratado pela liderança máxima como um elemento central para garantir a coesão do regime diante das turbulências externas e dos entraves de produtividade doméstica.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
