Após comandar e moldar os rumos da vida política da Sérvia por mais de uma década, Aleksandar Vucic foi derrotado nas eleições parlamentares antecipadas realizadas no domingo, 25 de outubro de 2026. A disputa foi vencida por uma plataforma liderada por estudantes universitários que organizou protestos contínuos contra o governo durante quase dois anos. O pleito registrou a maior taxa de comparecimento de eleitores às urnas em mais de 30 anos no país balcânico, culminando no reconhecimento público do resultado por parte do próprio governante.

Derrota histórica nas urnas e reação de Aleksandar Vucic

O líder do Partido Progressista Sérvio (SNS), de direita, admitiu o resultado desfavorável perante seus apoiadores logo após a divulgação das primeiras projeções oficiais por amostragem de votos. Os números apontaram que a coligação governista conquistou cerca de 105 assentos no Parlamento da Sérvia, que conta com 250 cadeiras. Já a legenda de oposição, denominada Lista Estudantil, alcançou entre 135 e 140 parlamentares, garantindo a maioria absoluta necessária para governar.

Em discurso direcionado aos correligionários na capital Belgrado, o político reconheceu a vitória dos adversários sem contestar os índices apurados pelas urnas:

“Está claro que perdemos estas eleições.”
— Aleksandar Vucic, líder do Partido Progressista Sérvio (SNS)

Vucic ocupava a presidência do país e havia sido reeleito em 2022 para um mandato que se estenderia originalmente até 2027. No entanto, diante da pressão ininterrupta das manifestações de rua, ele optou por renunciar ao cargo em setembro e convocou a realização do pleito legislativo antecipado, na tentativa de renovar a base de sustentação do regime.

Origem do movimento estudantil e a tragédia de Novi Sad

A articulação política que derrotou o grupo governista nasceu a partir de uma tragédia que comoveu a população sérvia em 1º de novembro de 2024. Na ocasião, o desabamento da cobertura de concreto de uma estação ferroviária na cidade de Novi Sad causou a morte de 16 pessoas. O episódio desencadeou fortes acusações de negligência, desvios em obras públicas e corrupção, dando início a uma onda de mobilizações encabeçadas por estudantes.

Com o passar dos meses, o movimento juvenil ganhou a adesão de diversos setores da sociedade civil e se estruturou formalmente como a chapa eleitoral Lista Estudantil. Durante a campanha, a plataforma foi liderada por Ilija Srdanovic, professor da Faculdade de Medicina de Novi Sad, reunindo propostas centradas no combate à corrupção, na despolitização das instituições públicas e na restauração dos direitos civis.

Ao longo dos quase dois anos de protestos, Vucic adotou uma postura de confronto contra os manifestantes, grupo que também agregava professores universitários, médicos e operários. O então presidente costumava classificar os opositores publicamente como bloqueadores e os acusava de tentar desestabilizar a ordem e a segurança da Sérvia.

Aleksandar Vucic
Aleksandar Vucic

Trajetória política: do ultranacionalismo ao controle estatal

Nascido em Belgrado em 1970, Aleksandar Vucic tem quase dois metros de altura e formou-se em Direito pela Universidade de Belgrado. Ele ingressou na vida pública em 1993, filiando-se ao Partido Radical Sérvio, agremiação ultranacionalista comandada por Vojislav Seselj. Na década de 1990, sua atuação foi marcada por uma retórica nacionalista extremada durante as guerras na região dos Bálcãs.

Um dos episódios mais emblemáticos de sua carreira ocorreu no Parlamento sérvio em julho de 1995, apenas nove dias após o genocídio de Srebrenica, quando declarou que cem muçulmanos seriam mortos para cada sérvio assassinado, no contexto dos debates sobre possíveis ataques da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra posições do Exército da Republika Srpska na Bósnia e Herzegovina.

Vojislav Seselj, mentor político inicial de Vucic, foi condenado em 2018 a dez anos de prisão pela Câmara de Recursos do Mecanismo Residual Internacional para Tribunais Penais por crimes de perseguição, deportação e transferência forçada de populações não sérvias durante os conflitos dos anos 1990. Na eleição parlamentar de domingo, Aleksandar Seselj, filho do antigo líder radical, integrou a lista eleitoral encabeçada pelo SNS de Vucic.

Movimento estudantil derrota Aleksandar Vucic nas urnas na Sérvia
Foto: Al Jazeera — Internacional

Controvérsias judiciais e denúncias de autoritarismo

Em 2008, após divergências internas no Partido Radical, Vucic e Tomislav Nikolic fundaram o Partido Progressista Sérvio (SNS), buscando construir uma imagem mais alinhada à política europeia convencional. Jornalistas que acompanharam a trajetória de Vucic apontam que ele começou com popularidade menor que a de Nikolic, mas assumiu a coordenação da máquina partidária.

“Vucic ficava muito atrás em popularidade na época e era essencialmente o organizador do partido recém-formado.”
— Safeta Bisevac, jornalista sérvia

O SNS chegou ao poder em 2012 prometendo punir irregularidades e desmantelar redes de crime organizado herdadas de gestões anteriores. Um dos casos de maior repercussão ocorreu em dezembro daquele ano, com a prisão do empresário Miroslav Miskovic e de seu filho Marko por suspeitas de crimes financeiros e sonegação. Contudo, após anos de tramitação judicial, pai e filho foram absolvidos de todas as acusações, e o Estado sérvio foi condenado a pagar indenizações financeiras aos dois.

Vucic atuou como primeiro vice-primeiro-ministro entre 2012 e 2014, assumiu o cargo de primeiro-ministro em 2014 e foi eleito presidente em 2017. Embora as funções da presidência sejam limitadas pela Constituição sérvia, analistas apontam que ele manteve controle absoluto sobre as decisões estatais e sobre o próprio partido, ao mesmo tempo em que buscava equilibrar relações diplomáticas simultâneas com a União Europeia, a Rússia, a China e, mais recentemente, Israel.

“Ele fez muitas promessas e cumpriu poucas, mas, enquanto isso, estabeleceu um controle quase completo sobre o aparato estatal.”
— Safeta Bisevac, jornalista sérvia

Críticos institucionais também apontam que os órgãos governamentais foram gradualmente aparelhados para silenciar vozes dissidentes nos últimos anos.

“Os serviços de inteligência estatais passaram menos tempo em suas funções reais e mais tempo monitorando oponentes políticos, enquanto o pensamento crítico foi expulso da mídia pública.”
— Dusko Radosavljevic, cientista político

Desempenho econômico e a crise no custo de vida

No terreno econômico, os governos de Aleksandar Vucic apresentaram números expressivos de crescimento macroeconômico a partir de 2012. Conforme dados oficiais citados pela agência Reuters, a taxa de desemprego na Sérvia caiu de 26% para a faixa de 8% a 9%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) nominal praticamente triplicou, alcançando cerca de 90 bilhões de euros (aproximadamente US$ 101 bilhões).

O volume anual de investimento estrangeiro direto também saltou de 800 milhões de euros (US$ 896 milhões) registrados em 2012 para a marca recorde de 5,2 bilhões de euros (US$ 5,8 bilhões) em 2024, viabilizando a construção de uma ampla malha de rodovias modernas pelo país. Apesar desses avanços, o aumento salarial não foi suficiente para compensar o encarecimento das despesas cotidianas, mantendo o custo de vida elevado e a dívida pública no centro das insatisfações populares.

Para analistas locais, essa combinação de desgaste econômico com repressão às instituições funcionou como estopim para a mobilização nas urnas.

“Os estudantes simplesmente deram voz à indignação justificada dos cidadãos.”
— Dusko Radosavljevic, cientista político

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.