A última pesquisa do Datafolha divulgada antes da votação do segundo turno presidencial trouxe uma análise até então inédita no processo eleitoral de 2026: a medição da intenção de voto ajustada pelo nível de propensão do eleitor a comparecer às urnas. No levantamento convencional de votos válidos, divulgado no sábado (24), o cenário segue em empate técnico no limite da margem de erro, com Flávio Bolsonaro (PL) somando 51% e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrando 49%. Contudo, a estratificação por probabilidade de presença física nos locais de votação revelou comportamentos inversos entre as bases dos dois candidatos, colocando o índice de abstenção como elemento central na definição do resultado.
Comportamento do eleitorado por nível de comparecimento
Pela primeira vez em suas sondagens, o instituto estabeleceu um recorte que divide os entrevistados segundo a probabilidade de votarem no domingo (25). Os dados apontam uma inversão exata de percentuais conforme o perfil de engajamento do eleitor:
- Eleitores com alta propensão a votar (76% do eleitorado): Flávio Bolsonaro lidera com 52% dos votos válidos, enquanto Lula aparece com 48%.
- Eleitores com baixa ou média propensão a votar (24% do eleitorado): Lula lidera com 52% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro registra 48%.
O contingente classificado com alta probabilidade de ida às urnas abrange mais de três quartos de todo o eleitorado apurado. Esse grupo reúne cidadãos que compareceram para votar no primeiro turno e que residem em áreas mais próximas das respectivas seções eleitorais. Já o segmento de média e baixa propensão engloba a fatia restante de 24%, na qual o petista abre quatro pontos percentuais de vantagem nos votos válidos.

Critérios e funcionamento do modelo de probabilidade
O modelo desenvolvido pelo Datafolha busca mensurar a influência que as oscilações de comparecimento exercem sobre a composição real dos votos depositados na urna. Em vez de projetar o resultado fechado do pleito, a metodologia visa apontar distinções de perfil entre quem tem maior ou menor probabilidade prática de participar da votação.
Para categorizar os entrevistados, o instituto tomou como base duas variáveis objetivas informadas no questionário: a participação efetiva do eleitor no primeiro turno da eleição e a distância física entre a residência do cidadão e a sua seção eleitoral. O cruzamento dessas informações permitiu segmentar a amostra entre grupos com diferentes predisposições de presença, sem que isso represente uma certeza matemática de que os 24% com menor propensão irão se abster ou que a totalidade dos 76% mais propensos comparecerá.

Mobilização eleitoral e cruzamento com outros levantamentos
A discrepância nos números impõe desafios operacionais distintos para cada comitê de campanha na reta decisiva. Para a candidatura de Flávio Bolsonaro, o desempenho superior se concentra justamente na parcela que historicamente apresenta menores barreiras para votar. Para a campanha de Lula, a liderança numérica repousa sobre uma fatia que depende diretamente de incentivos e facilidades logísticas para sair de casa e depositar o voto, justificando a intensa mobilização das bases populares petistas nas horas antecedentes à votação.
O padrão identificado pelo Datafolha converge com observações feitas por outros institutos ao longo da reta final do segundo turno. Em levantamento divulgado no dia 20 de outubro pela AtlasIntel, Lula também apresentou desempenho mais expressivo entre eleitores que relataram ter faltado à votação no primeiro turno. Naquela sondagem específica, o atual presidente marcou 55,7% das intenções de voto entre os ausentes da primeira etapa, contra 40,2% atribuídos a Flávio Bolsonaro. Embora Datafolha e AtlasIntel empreguem métodos de pesquisa distintos, ambos os estudos indicaram que parte relevante da base eleitoral simpática a Lula esteve afastada das urnas no primeiro turno.
A trajetória dos votos válidos ao longo do segundo turno
O impacto potencial da presença do eleitor torna-se decisivo em razão do equilíbrio demonstrado pela série histórica do Datafolha nas semanas de campanha do segundo turno. A evolução dos votos válidos retratou variações curtas, sempre situadas dentro da margem de erro da pesquisa:
- Primeira pesquisa após o primeiro turno: Flávio Bolsonaro com 52% e Lula com 48%;
- Rodada intermediária: Flávio Bolsonaro com 51% e Lula com 49%;
- Levantamento de quinta-feira (22): Empate absoluto em 50% para Flávio Bolsonaro e 50% para Lula;
- Levantamento final de sábado (24): Flávio Bolsonaro com 51% e Lula com 49%.
Como a oscilação total entre os postulantes ao Palácio do Planalto permaneceu estreita desde o início de outubro, pequenas variações regionais ou demográficas na taxa de abstenção têm a capacidade de alterar a correlação final dos votos válidos no momento da apuração oficial pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Reta final com atos no Sudeste e dados técnicos da pesquisa
Cientes do peso que a mobilização exerce sobre o resultado, as duas campanhas concentraram os últimos compromissos públicos nos três maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. As equipes de Flávio Bolsonaro e de Lula voltaram seus esforços nos atos finais para assegurar o comparecimento dos eleitores já conquistados e convencer parcelas indecisas ou desestimuladas da população do Sudeste.
A pesquisa Datafolha ouviu 4.050 eleitores presencialmente em todo o território nacional entre os dias 23 e 24 de outubro de 2026. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, considerando um nível de confiança estatística de 95%. O trabalho foi contratado conjuntamente pela TV Globo e pela Folha de S.Paulo e encontra-se registrado perante a Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-09540/2026 no Tribunal Superior Eleitoral.
Fonte: InfoMoney — Economia — matéria original publicada em infomoney.com.br. Imagens e vídeos: InfoMoney — Economia. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
