NAYPYIDAW, Mianmar — O cenário da guerra civil em Mianmar, que se arrasta há cinco anos, testemunha uma reviravolta significativa. As forças armadas do país, que tomaram o poder em um golpe em fevereiro de 2021, têm recuperado terreno e consolidado sua posição em diversas regiões, especialmente no estado de Chin, próximo à fronteira com a Índia. A ofensiva militar é marcada por uma combinação de poder aéreo, recrutamento em massa e uma complexa dinâmica geopolítica envolvendo a China.
Retomada Estratégica no Estado de Chin
Em abril de 2026, a cidade de Falam, no estado de Chin, um ponto estratégico com o único aeroporto da região e uma rota comercial vital para a Índia, foi retomada pelas forças militares após seis meses de intensos combates. Combatentes rebeldes da Irmandade Chin, que controlavam a cidade há um ano, relataram ter recuado por falta de munição, enfrentando centenas de ataques aéreos e uma ofensiva terrestre de aproximadamente mil soldados.
A queda de Falam foi seguida pela perda de mais três cidades em Chin, e até o final de maio, o exército birmanês reivindicou o controle de toda a parte norte do estado. Salai William Chin, membro da Irmandade Chin, refletiu sobre a lição aprendida:
“Falam nos ensinou uma lição importante. Capturar uma cidade e mantê-la são dois desafios muito diferentes. Mantê-la por um longo período exigia mão de obra, logística, administração, proteção civil e a capacidade de resistir a ataques repetidos, especialmente do ar.”
Apesar do revés, Salai William Chin prometeu que a luta continuaria, sugerindo que o sucesso não seria medido apenas pela posse permanente de cada cidade. Ele enfatizou a importância da guerra móvel para preservar as forças e proteger os civis, especialmente diante da vantagem aérea militar.
Fatores por Trás da Reviravolta Militar
Analistas apontam múltiplos fatores para a mudança no ímpeto do conflito. A oposição, uma coalizão de milícias e organizações étnicas armadas, havia conquistado dezenas de cidades entre 2023 e 2024, mas agora se encontra em retirada. Os principais catalisadores para a recuperação militar incluem:
- Recrutamento em Massa: Uma campanha de recrutamento forçado adicionou dezenas de milhares de novos soldados às fileiras militares, reabastecendo suas forças. Anthony Davis, analista de segurança baseado em Bangkok, estima que cerca de 150.000 soldados foram adicionados desde 2024 por meio do recrutamento, muitos com pouco treinamento, mas em número suficiente para avançar.
- Campanha Aérea Devastadora: A força aérea de Mianmar tem conduzido uma campanha implacável, resultando em centenas de mortes civis. O Projeto de Internet de Mianmar registrou 520 ataques aéreos entre abril e junho, atingindo 87 municípios e matando pelo menos 314 civis, incluindo 41 crianças. O estado de Chin foi o mais atingido, com 122 ataques, seguido por Sagaing (101) e Rakhine (98).
- Apoio da China: Pequim tem desempenhado um papel crucial, mediando cessar-fogos entre o exército e alguns grupos étnicos armados poderosos, enquanto simultaneamente restringe o fornecimento de armas a outros grupos de oposição. A pressão chinesa levou a Força Democrática da Aliança Nacional de Mianmar e o Exército de Libertação Nacional Ta'ang a se retirarem dos combates, permitindo que o exército birmanês realocasse tropas. Além disso, o Exército Unido do Estado de Wa, um dos grupos étnicos armados mais fortes de Mianmar, foi pressionado a parar de vender armas à oposição, contribuindo para a escassez de munição em todo o país.

Impacto Humano e Cenário Político
A guerra, que começou após uma repressão brutal a manifestantes desarmados, já resultou em mais de 100.000 mortes, de acordo com o projeto ACLED (Armed Conflict Location and Event Data). A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 3,9 milhões de pessoas foram deslocadas e que um em cada três habitantes necessita de assistência humanitária.
No início deste ano, o General Sênior Min Aung Hlaing, líder do golpe de 2021, presidiu eleições controladas, nas quais os principais partidos de oposição foram impedidos de participar e a votação foi impossível ou boicotada em grande parte do país. Ele foi empossado como presidente em abril, completando sua transição de comandante-em-chefe para chefe de um governo nominalmente civil em Naypyidaw. Embora Min Aung Hlaing tenha expressado o desejo de negociações de paz com os oponentes armados, incluindo em Chin, os combates persistem.
Desafios e Perspectivas Futuras
O exército birmanês abriu novas operações este ano nos estados de Chin, Kachin, Kayin e Rakhine. Segundo o ISP-Myanmar, um think tank independente, 22 das 101 cidades perdidas após o golpe foram retomadas. Embora isso represente apenas 9% do território perdido, as áreas são estrategicamente importantes, incluindo corredores comerciais que ligam as regiões fronteiriças ao centro de Mianmar, onde estão as principais bases militares.
Su Mon, analista do ACLED, observa que a captura dessas áreas “interrompeu a capacidade econômica e logística de muitos grupos de resistência”. Ela acrescenta que, embora o exército ainda não tenha restaurado completamente sua administração nessas áreas, as vitórias “impediram efetivamente a coordenação da resistência”, empurrando os grupos de oposição “de ofensivas coordenadas em larga escala para uma guerra de guerrilha defensiva”.
No entanto, Su Mon adverte que o exército é improvável de obter “vitórias existenciais ou politicamente decisivas” contra a oposição, prevendo que o país “enfrentará uma guerra de atrito prolongada” nos próximos meses. Phil Robertson, diretor da organização Asia Human Rights and Labour Advocates, ressalta que “a incapacidade da resistência de combater a superioridade aérea militar” enfraqueceu o ânimo entre as forças de oposição. Ele afirma que “ataques aéreos desmoralizam as PDFs (Forças de Defesa Popular) e outras tropas de resistência, e dispersam os civis que apoiaram os rebeldes”.

Apesar dos desafios, as forças anti-militares insistem que a guerra não está perdida. Thinzar Shunlei Yi, ativista exilada, afirma que as redes de oposição continuam treinando organizadores e construindo apoio. Em Chin, Salai William Chin permanece resoluto:
“Temos outros planos, mas ainda é muito cedo para falar publicamente sobre eles. Eu não diria que o poder aéreo decidiu permanentemente o campo de batalha. Continua sendo um desafio sério, mas a guerra continua a evoluir, e as forças de resistência também continuam a aprender e a se adaptar.”
O conflito em Mianmar, com suas complexas dinâmicas internas e a influência de potências regionais, continua a ser uma fonte de instabilidade e sofrimento humano, com um desfecho ainda incerto.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
