A safra de trigo no Sul do Brasil enfrenta um cenário desafiador devido ao excesso de chuvas, impulsionado pela atuação de um super El Niño. Produtores do Paraná e Rio Grande do Sul relatam perdas significativas na qualidade e no rendimento da produção, com precipitações atípicas e baixa luminosidade prejudicando as lavouras em fase final de ciclo e durante a colheita.
Impacto no Paraná: Colheita em Meio à Umidade e Doenças
No Paraná, a colheita do trigo atingiu aproximadamente 46% da área plantada, um avanço que, embora dentro do ritmo previsto, ocorre sob condições operacionais desfavoráveis. A umidade elevada dos grãos e a proliferação de doenças são as principais preocupações dos agricultores.
Como sempre tem previsão de chuva, o produtor não está colhendo em uma situação ideal.
A declaração é de Carlos Winckler Godinho, coordenador da Divisão de Conjuntura do Departamento de Economia Rural (Deral) do Paraná. Ele explica que o volume de chuva registrado em períodos incomuns, como agosto, somado a um inverno predominantemente quente e com baixos índices de radiação solar, provocou a deterioração das condições das lavouras ao longo do último mês.
Infelizmente a gente teve uma chuva de primavera no inverno. Por enquanto temos um volume bastante grande em um período que nem é comum, como agosto. Está um pouco fora do padrão e o El Niño continua com força total.
Godinho acrescenta que as lavouras colhidas apresentam umidade mais alta, qualidade comprometida e produtividade inferior ao esperado. A perda de peso do grão e a queda na qualidade final são consequências diretas desse cenário.

O quadro fitossanitário do estado também reflete o excesso de umidade. O boletim mais recente do Deral aponta a ocorrência de doenças como giberela e brusone, além de acamamento de plantas e danos pontuais causados por geadas.
Redução da Área Plantada e Perspectivas Futuras
Para a safra atual, o Paraná já havia registrado uma redução de 12% na área plantada de trigo. Essa diminuição foi influenciada por uma combinação de fatores, incluindo preços menos atrativos da commodity, a concorrência com o milho safrinha e as incertezas climáticas associadas ao El Niño.
Minha percepção é que é uma coisa que se soma à outra. Se o preço estivesse bom, todo mundo teria esquecido o El Niño.
O analista do Deral observa que a produtividade já era esperada abaixo da registrada em 2025, considerada uma safra excepcional. A tendência é de um novo ajuste para baixo nas estimativas de produtividade. Para os próximos anos, Godinho vê pouca possibilidade de recuperação significativa da área cultivada com trigo, mesmo em um cenário de preços mais elevados.
O milho tem tido um avanço grande. Dificilmente isso se reverte.
Segundo ele, a segunda safra de milho oferece maior produtividade e liquidez em grande parte do estado. No entanto, regiões do sul e sudoeste do Paraná, onde a alternativa do milho é mais limitada, podem registrar alguma recuperação da área de trigo.
Situação Crítica no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, maior estado produtor nacional de trigo, os trabalhos de campo estão apenas no início, com menos de 1% da área colhida, conforme dados da Emater/RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul). O calendário da cultura no estado é mais tardio em comparação com o Paraná, o que significa que o impacto das chuvas ainda pode se agravar.

As precipitações frequentes e os ventos fortes impedem a entrada de máquinas nas lavouras, aumentando a apreensão do setor produtivo. De acordo com Mateus Rocha, diretor técnico da Emater/RS, as perdas atuais e o risco de acamamento estão diretamente associados às instabilidades climáticas na reta final do ciclo da cultura.
O que nos preocupa é exatamente isso: falta de luminosidade, chuvas excessivas nesse momento e o prejuízo que essa chuva pode trazer à cultura, que acaba muitas vezes acamando e trazendo dificuldade na colheita. A questão da qualidade é algo que nos preocupa bastante, principalmente sabendo que o trigo é uma cultura bastante frágil para questões climáticas de grande umidade. Isso traz muitas questões [de doenças] fúngicas.
Rocha destaca a preocupação com a falta de luminosidade e os transtornos operacionais. O relatório da Emater/RS também registra a incidência de oídio, ferrugens, manchas foliares e giberela, além de danos pontuais causados por geadas e granizo.
Problemas de Qualidade no Recebimento e Perspectivas Preocupantes
O analista Luis Pacheco, da TF Consultoria Agroeconômica, relata que moinhos já apontam problemas no recebimento do trigo proveniente das primeiras colheitas no Rio Grande do Sul. Os grãos apresentam índices elevados de umidade, baixo PH (peso hectolítrico) e redução de parâmetros industriais importantes, como força de glúten e número de queda.
Algumas colheitas pontuais (trigo ruim), grãos chochos, PH baixo, grãos com giberela, mas coisas pontuais mesmo, especialmente na região mais noroeste [do estado]. E vem mais chuvas pela frente. Com Rio Grande do Sul debaixo d’água, este parece que será um ano bem complicado, como já esperávamos.
A situação climática, com a persistência do El Niño e a previsão de mais chuvas, indica que os desafios para a safra de trigo no Sul do Brasil devem continuar, com impactos significativos na qualidade e na rentabilidade dos produtores.

O Que Isso Significa Para a Região
A deterioração da qualidade e a redução da produtividade do trigo no Paraná e Rio Grande do Sul têm implicações econômicas diretas para a região. A menor oferta de grãos de boa qualidade pode levar a um aumento nos preços do trigo e de seus derivados, afetando a indústria de alimentos e, consequentemente, o consumidor final. Além disso, a necessidade de importar trigo para suprir a demanda interna pode gerar desequilíbrios na balança comercial agrícola. Para os produtores, as perdas representam um duro golpe financeiro, comprometendo o planejamento das próximas safras e a estabilidade econômica das propriedades rurais. A dependência de condições climáticas favoráveis e a vulnerabilidade a fenômenos como o El Niño reforçam a importância de estratégias de mitigação de riscos e de diversificação de culturas, onde possível, para garantir a resiliência do setor agrícola.
Imagens e vídeos da cobertura

Leitura da LZ7 Energia
A instabilidade climática, com eventos extremos como o super El Niño e o excesso de chuvas, não afeta apenas a agricultura, mas também pode ter impactos indiretos no setor energético. Fenômenos climáticos intensos podem gerar interrupções no fornecimento de energia, seja por danos à infraestrutura de transmissão e distribuição, seja por afetar a geração de energia em hidrelétricas (em caso de secas prolongadas) ou a eficiência de sistemas solares (em períodos de baixa irradiação solar e céu nublado). A busca por fontes de energia mais resilientes e a diversificação da matriz energética, com a crescente adoção da energia solar, tornam-se ainda mais relevantes em um cenário de mudanças climáticas, oferecendo uma alternativa para a autossuficiência energética e a redução da dependência de grandes redes suscetíveis a intempéries.
Fonte: CNN Brasil — Nacional — matéria original publicada em cnnbrasil.com.br. Imagens e vídeos: CNN Brasil — Nacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
