A população dos municípios de Chopinzinho e São João, localizados na região Sudoeste do Paraná, decidiu nas urnas a redefinição de suas divisas territoriais. Realizado em conjunto com o segundo turno da eleição presidencial em 25 de outubro de 2026, o plebiscito municipal determinou que uma faixa de aproximadamente 1,3 mil hectares, pertencente à localidade rural de Linha Mirim — também chamada de Comunidade do Alto Mirim —, deixará a jurisdição de Chopinzinho para ser incorporada formalmente ao município vizinho de São João. A proposta recebeu ampla aprovação popular, alcançando 86,93% dos votos válidos favoráveis à mudança.
Aprovação expressiva nas urnas durante o pleito
A votação mobilizou os eleitores de ambos os municípios após a escolha do cargo de presidente da República. Ao todo, a Justiça Eleitoral contabilizou 18.475 sufrágios pelo desmembramento territorial, contra 2.777 manifestações contrárias, o que representou 13,07% das opções válidas. De acordo com os dados apurados pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), o índice de abstenção registrado durante o processo cívico foi de 16,85%. Além disso, os votos em branco corresponderam a 1,37% do total, enquanto os votos nulos somaram 0,47%.
A realização desta consulta popular representou um fato pioneiro no cenário nacional. O pleito paranaense figurou como a primeira experiência no país conduzida estritamente de acordo com as regras estabelecidas pela Lei Complementar nº 230/2026, legislação aprovada em abril do mesmo ano que disciplina as exigências e os procedimentos para a cisão e posterior anexação de porções territoriais entre diferentes municípios.

Realidade geográfica e motivos da consulta
A delimitação espacial da Comunidade do Alto Mirim e sua discrepância em relação às sedes municipais foram os fatores centrais para a mobilização que culminou nas urnas. A localidade rural abriga cerca de 250 habitantes, distribuídos em aproximadamente 60 núcleos familiares. Embora fizessem parte administrativamente de Chopinzinho, os moradores enfrentavam uma distância de 30 quilômetros até a área central daquele município, ao passo que a área urbana de São João está situada a apenas 4 quilômetros de distância das residências rurais da Linha Mirim.
Essa proximidade imediata com a zona urbana vizinha consolidou uma dinâmica diária de dependência em relação aos serviços públicos de São João, como explicou o prefeito do município, Joni Zanella Ferreira:
"Devido à proximidade, a comunidade acaba cruzando o limite entre os municípios e utilizando os serviços públicos em São João, como saúde e educação, além de consumir no comércio da cidade."
Do lado de Chopinzinho, a liderança municipal acolheu prontamente a reivindicação local. O prefeito Álvaro Scolaro pontuou que o movimento partiu diretamente da base comunitária e refletia uma distorção espacial histórica consolidada na formação das divisas regionais:
"Se trata de um erro de demarcação."
Durante a tramitação que antecedeu a votação nas urnas, o TRE-PR abriu a possibilidade de que fossem organizadas e formalizadas correntes pró e contra a mudança. Conforme ressaltou Scolaro, o cenário democrático evidenciou o consenso regional, registrando a formação de duas frentes favoráveis à alteração territorial e nenhuma frente de oposição estruturada.
Histórico dos estudos técnicos e mobilização intermunicipal
O processo formal que viabilizou a realização da votação popular teve início institucional no mês de maio de 2026. Na ocasião, as gestões municipais de Chopinzinho e São João criaram um grupo de trabalho conjunto dedicado a examinar minuciosamente a viabilidade da transferência. A equipe técnica interdisciplinar contou com a participação de profissionais de diversas áreas, abrangendo:
- Procuradoria Jurídica dos dois municípios;
- Setores de Planejamento Urbano e Territorial;
- Secretarias de Finanças ou Administração municipal;
- Engenheiros civis e especialistas em infraestrutura;
- Topógrafos responsáveis pelas demarcações de campo;
- Representantes eleitos das Câmaras de Vereadores de ambas as cidades.
Entre as atribuições executadas pelo grupo de trabalho intermunicipal estiveram o levantamento cartográfico detalhado de todo o perímetro de 1,3 mil hectares da Linha Mirim, a condução de consultas públicas para ouvir a comunidade e os munícipes, a formulação de um diagnóstico socioeconômico sobre a realidade das 60 famílias envolvidas e o cálculo do impacto financeiro que a transição causaria nas contas de cada uma das prefeituras.
Apoio técnico do IAT e autorização do legislativo
Para assegurar respaldo institucional e segurança técnica ao procedimento, os órgãos de estado também foram integrados às análises. O Instituto Água e Terra (IAT), órgão ambiental e territorial do Governo do Estado do Paraná, foi acionado para supervisionar e emitir laudos técnicos sobre o caso. Apoiando-se no Estudo de Viabilidade Municipal e nos mapeamentos georreferenciados entregues pelo comitê intermunicipal, o IAT manifestou parecer favorável à reorganização das fronteiras.
Com os laudos e levantamentos consolidados, as prefeituras recorreram ao Poder Legislativo estadual. Em julho de 2026, os dois gestores municipais obtiveram a homologação do Decreto Legislativo nº 6/2026 junto à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep-PR), passo legal indispensável para permitir o chamamento dos eleitores às urnas. No mesmo mês, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná formalizou a convocação do plebiscito e estipulou o calendário eleitoral para coincidir com o pleito de 25 de outubro, em observância estrita aos dispositivos da legislação federal complementar vigente.
Próximos passos e publicação de lei estadual
Com o encerramento da apuração e a manifestação inequívoca de 86,93% do eleitorado, os procedimentos passam para o âmbito formal e burocrático do Estado. A Justiça Eleitoral do Paraná fará a proclamação oficial do resultado e comunicará formalmente a Assembleia Legislativa do Paraná sobre o veredito das urnas.
A partir do recebimento da ata oficial pelo parlamento estadual, a Alep dará andamento à redação e votação de um projeto de lei estadual. A sanção e publicação dessa nova legislação serão as etapas definitivas para retificar os mapas geográficos oficiais do Paraná, integrando a Comunidade do Alto Mirim de forma definitiva e permanente aos limites territoriais e administrativos da cidade de São João.
Fonte: G1 Paraná — Norte e Noroeste — matéria original publicada em g1.globo.com. Imagens e vídeos: G1 Paraná — Norte e Noroeste. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
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